?

Log in

Lara Ramos
20 April 2014 @ 01:52 am
A gente monta todo o cenário e começa a atuar fielmente nele na esperança de que o resto venha. Por "resto", entenda-se "o estado de espírito que faria uma pessoa viver naquele cenário".

É por isso que arrumo/decoro minha casa e meu quarto ao menos uma vez a cada dois meses de forma a fazer dele um lugar onde quem eu quero ser queira viver. Limpo, minimalista, organizado. De quem sabe o que é e o que quer.

E então no primeiro mês vivo nele esperando que exista algo como o "o efeito placebo autoaplicável", e assim me tornarei uma pessoa minimamente situada em mim mesma.

No final do segundo mês, porém, a bagunça pelos cantos é igual a que sinto por dentro. 
 
 
Humor: indifferentindifferent
Música: Chinawoman - Lovers are Strangers
 
 
Lara Ramos
08 March 2014 @ 01:20 am
"You showed that it is not necessary to be unhappy, even while one is clear-eyed and undeluded about how terrible everything is. Somewhere you said that a writer — delicately you added: all persons — must think that whatever happens to him or her is a resource. "
 
 
Lara Ramos
18 January 2014 @ 01:06 am
Acordo cedo, só meia hora antes de sair porque não preciso de muito tempo pra me arrumar.
Durante o banho, penso que deveria ter acordado talvez quinze minutos antes, pra que você não fique tanto tempo sozinho antes de eu voltar.
Então eu lembro.
Volto pra casa pra almoçar e, sempre antes de terminar o prato, penso em deixar a última mordida pra você.
Enquanto como a última parte do almoço, o gosto é mais amargo.
Penso em caminhar na rua, e desisto ao pensar que vou ter que atravessar os lugares que você adorava.
Preciso dormir cedo, mas quero ficar um pouco mais na sala pra te fazer companhia antes de ir pra cama.
Acabo pegando no sono muito tarde, sem conseguir relaxar no tempo que devia ser gasto com você, que só tinha a mim.
E, de certa forma, eu só tinha você.
Na minha preocupação em saber quando algo estava errado, quando sua doença iria ou não piorar, eu conhecia todas as suas respirações.

Mas agora, quando lembro, é somente da última vez que você respirou.

E parecia tranquilo.
Mas essa ausência. Essa ausência.
 
 
Humor: lonelylonely
 
 
Lara Ramos
15 December 2013 @ 12:16 am
É um tipo de vazio à frente que nunca vi antes. Sempre houve uma ocupação, algum dever a cumprir entre uma sessão de crise existencial e outra. Um vestibular, uma faculdade, um estágio. Do tipo "enquanto penso no que fazer no futuro vou aqui estudar pra essa prova/fazer essa graduação/passar nesse vestibular".

Agora não. Não consigo enxergar nem meia hora à minha frente.

A única meta, que certamente arranjei somente pra ter uma, é o exercício físico diário e a reeducação alimentar.

Não sei o que quero fazer. Não sei o que conseguiria fazer, se decidisse o que quero. E já seria ruim o suficiente se não tivesse passado por um fracasso na última coisa que tentei.

Mas uma oportunidade apareceu. Não é nada do que achava que iria acontecer, nem sei se é algo que vou saber fazer, mas é algo.

Então vamos. 
 
 
Música: Aquele álbum maravilhoso do My Bloody Valentine
 
 
Lara Ramos
10 October 2013 @ 02:04 am
(Mais uma daqueles textos bêbados)

Luiz Mott foi uma homossexual exemplar, socialpoliticamente falando. Hoje na faixa dos 60, foi um dos primeiros "invertidos" a se assumir no país contemporâneo e, além disso, foi um dos primeiros a escrever obras sérias e importantes sobre a história da homossexualidade brasileira, (talvez inconscientemente) atendendo ao gosto que a maioria dos LGBT tem de se reconhecer no outro,o que é nada menos do que uma necessidade absolutamente normal de não se sentir sozinho. Isso porque a maioria de suas obras visa reconstruir o mundo então invisível da comunidade gay nas raízes do país, naquela época que conhecemos na escola, pelos livros didáticos (que provavelmente não mencionam esse aspecto das figuras que construíram nosso querido Estado).

O conheci através de um artigo (hoje perdido) sobre homossexualidade e cristianismo, num site sobre o mesmo tema. O texto era incrível, com referências à vida monástica e à interação entre clero e sociedade que até então nunca tinha ouvido falar, somente contando com o conhecimento histórico de um colégio de monges beneditinos (mas que, convenhamos, em nada mudaria se tivesse frequentado um colégio "laico"). Dele, cheguei até a "Bibliografia básica sobre homossexualidade", uma listagem impressionante onde muitos textos são de autoria do próprio Mott, e não é preciso ler todos pra perceber a importância do homem pra qualquer sociólogo ou entusiasta em história da homossexualidade no Brasil.

Como entusiasta (e recentemente questionada por referências sociológicas numa dissertação jurídica sobre famílias homoparentais)...me entusiasmei. Ao encontrar Mott vivo e ativo no Facebook, prontamente o segui a fim de saber mais sobre as ideias de um homem tão...precursor.

Procurando Mott, encontrei Luiz.

Um homem de meia idade, sarcástico e irônico em demasia, cético sobre as coisas do mundo, desesperançoso quanto às pessoas, insensível nas palavras. Desmedido. As mesmas características que talvez o permitiram adentrar sem medo na pesquisa LGBT em tempos difíceis hoje parecem deslocadas e exageradas, grosseiras, até ofensivas.

Depois de alguns meses o abandonei, antes que o homem me fizesse desgostar da obra. Não sei até que ponto isso é válido.

Curioso, porque recentemente acompanhei e participei de um breve debate sobre a influência da "qualidade" do autor na qualidade da obra. Na ocasião, discutia-se Woody Allen, sua pedofilia (?) e seus filmes. Após algumas ideias sobre "a arte e o artista", alguém chegou a afirmar que teria um quadro de Hitler em casa porque "apesar dele não saber aplicar o amarelo", seu talento mediano aceitaria uma apreciação tanto quanto qualquer outro. Apesar desse comentário infeliz...

Sem conclusões.

Sei que Mott e Allen me inspiraram.

Sei que quero distância de Luiz e Woody.
 
 
 
Lara Ramos
10 October 2013 @ 01:35 am
Quer dizer, chegar até o ponto de ter consciência que errou não é tão simples assim, a depender do caso. Pode ser precedido, então, pela fase do "não errei, eu sou assim" ou do "se eu errei não importa agora". Superar a negação não é muito fácil. Mas enfim, você erra.

E aí você passa por um monte de coisas internas e externas até conseguir se forçar a reparar o erro e reaver aquilo que você tinha da melhor forma possível. E aí, meu querido, esteja disposto a carregar cada parte do peso que te cabe pelo que você fez ou deixou de fazer e não deveria. A parte interessante é que o reconhecimento de uma falha geralmente cria de pronto um sentimento de culpa que é um espaço onde as consequências batem e você sente tanto que merece passar por aquilo que não é assim tão sofrível.

Confiar nos outros pra te responsabilizar na medida certa é a parte complicada. Mais do que querer nossos "problemas resolvidos por decreto", como disse Leminski, às vezes queremos mesmo é uma sentença, líquida e certa sobre até onde os outros podem agir sobre você como

(Texto incompleto salvo pelo Livejournal e publicado semanas depois. Nem se eu quisesse ia conseguir terminar devidamente).
 
 
Lara Ramos
20 August 2013 @ 12:07 am
and oh, when I'm old and wise
heavy words that tossed and blew me
like autumn winds will blow right through me



Quase formada, quase advogada, quase romanticamente estável, quase irremediavelmente adulta. Sei que vivo, o resto é pedir demais. Não faço ideia do que fazer sobre isso, e não ter tempo pra pensar é quase um alívio.

Só sei que queria ter tempo pra ler.

"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana", disse Adriano, no livro que a correria sem fim não me deixa terminar. Logo quando há muita voz pra pouca palavra ao meu redor. 
 
 
Humor: frustratedfrustrated
Música: The Alan Parsons Project - Old and Wise
 
 
Lara Ramos
14 July 2013 @ 05:10 am
My soul has comforted and assured me
That in time my heart it will reward me
And that all will be revealed
So I've sat and I've watched an ice-age thaw

Are you the one that I've been waiting for?
 
 
Lara Ramos
08 July 2013 @ 12:23 am
No que parecia o auge da confusão e incerteza, o início do arrependimento e eventual volta ao status quo ante, a função aleatória do media player me deu um presente ao começar a tocar aquela música.

Trilha sonora de momentos igualmente confusos de anos atrás, me serviu para lembrar que já me senti assim antes. E me ensinou. E passou.

 
 
Lara Ramos
05 July 2013 @ 08:11 pm
O espaço é ocupado pelos livros (cada vez em maior quantidade e que gosto de deixar sempre ao alcance dos olhos), meu guarda-roupa (cada vez mais gasto e com menos peças, dentro do quarto somente pela impossibilidade de colocá-lo em qualquer outro lugar) e as coisas que me permitem sair de casa minimamente apresentável (nem metade do que observo na casa de outras mulheres e também lá pela falta de estrutura do banheiro mínimo).

Poucas bolsas, muitos papéis, um violão velho e quebrado para eu nunca esquecer que quero aprender a tocá-lo,  uma caixa de som quase do tamanho do violão que me permite o escapismo pela música sempre que possível. Escrivaninha que não tem espaço para escrever de fato, somente para o computador antigo e inseparável.

Uma cama de casal torna tudo sempre incômodo, forçando a troca da caixa de som, a saída do violão, o uso do lado vazio da cama para livros e roupas. Impossível andar pelo quarto sem esbarrar naquele espaço extra que, apesar de esporadicamente ocupado, permanece sempre ali, mesmo quando estou só. Especialmente quando estou.

Tento me adaptar à redução de mobilidade, aos dois travesseiros, ao aperto dos livros e bolsas e a dividir meu espaço. Por um tempo, parece dar certo, pareço pertencer àquele lugar e tudo parecer pequeno provavelmente é um reflexo do meu próprio crescimento.

Mas paredes são paredes e o quarto não comporta uma cama de casal. Eventualmente o aperto me reprime e o sufoco se transforma em fadiga que se transforma na conhecida decisão de desmontar as peças e reaver a antiga e pequena cama.

Sem poder mais me revirar durante a noite, estudar ou escrever entre os lençóis. Ainda assim o aperto do colchão me liberta ao garantir o espaço ao meu redor.

É parte de um ciclo que dura até quando me esqueço que certas paredes ainda são indestrutíveis.
 
 
Música: Rufus Wainwright - Poses